O que vos apresento a seguir… é o texto integral de um Artigo de Adriana Campos. O meu comentário? Já foi feito no respectivo “forum” do artigo… Deixo-o ai… para ler e pensar e…
retirado de: http://www.educare.pt/artigo_novo.asp?fich=ESP_20060830_606
“Por muito que queiramos não conseguiremos nunca colocar-nos no lugar dos outros. E ainda bem. Cada um vive a sua própria vida, e, ao olhar em redor, vemos que a nossa nem é mais, nem menos boa que a dos outros. É apenas diferente. Também já tive uma filha que morreu ao nascer, e pensei ser a única vítima de um destino inexorável. Anos mais tarde assisti, impotente, à morte anunciada do homem que poderia ter sido o homem da minha vida, e que estava tão preso a ela que doía só de pensar o que lhe iria na alma ao sentir que a deixaria muito em breve. Ainda hoje, volvidos 4 anos, não consigo escrever sobre o assunto sem chorar copiosamente. Nunca me esquecerei das suas palavras, ao ouvir um belíssimo programa de rádio (que tinha sempre à cabeceira da cama como ligação ao mundo, presumo eu): “Tudo o que é bem feito, é bonito!” O que acho curioso é que estes factos me tornaram uma pessoa melhor, mas também pior num certo sentido, e gostaria muito que alguém me explicasse esta contradição.”
Gabriela Correia - Faro
Este comentário a um dos meus últimos artigos ficou-me no pensamento. Gostaria, por isso, de tecer algumas considerações, tendo-o como ponto de partida. Não procurarei dar nenhuma resposta, uma vez que, como psicóloga, sei que poderei apenas ajudar os outros a encontrarem a solução para as suas próprias questões, porque, como diz a Gabriela, e bem, “cada um vive a sua própria vida” e, por isso, tem uma forma muito própria de a sentir.
Quando somos confrontados com grandes mudanças, tais como doenças ou acidentes graves, perda dos que amamos, passagem à reforma em consequência do final da actividade profissional, quase sempre entramos em crise. A crise obriga-nos a crescer porque exige que façamos balanços e encontremos um novo sentido para a nossa existência. O processo de crescimento torna-nos mais maduros e, por isso, passamos a ver a vida de uma maneira diferente e a valorizar mais outras coisas, nomeadamente as coisas simples, aquelas que, no passado, achávamos irrelevantes para a nossa felicidade. Tudo ganha um peso diferente e, por essa razão, sentimos que a vida é para ser vivida sempre e não apenas naqueles momentos que nós idealizamos como sendo os bons. Por este lado, parece-me que nos tornamos francamente melhores. Mas, como “não há bela sem senão” e como tudo tem o reverso da medalha, há um lado da nossa vida que, de certa maneira, se complica.
O que se altera e que, de certa forma, vem dificultar tudo é a percepção que passamos a ter de nós próprios como seres humanos. As situações de crise colocam-nos num patamar diferente ao nível existencial. Deixamos de ser árvores com raízes bem presas ao chão e passamos a ser folhas, de tal maneira frágeis que qualquer rajada de vento nos pode levar, sabe-se lá bem para onde. Deixamos de acreditar que somos livres como pássaros e passamos a admitir que a nossa liberdade é condicionada por uma multiplicidade de factores. Ou seja, as nossas catástrofes provocam a queda das ilusões e da segurança que fomos construindo num nível etário (adolescência e juventude) em que o sentido da vida não é ainda questionado, mas apenas vivido de uma forma mais ou menos inconsciente. No fundo, a vida vai-se encarregando de nos provar que somos todos iguais e que acontecimentos negativos acabam por sobrar para todos. Quando interiorizamos que a dor é algo inevitável, então perdemos aquela tranquilidade que advém da ingénua crença de que a adversidade talvez só atinja alguns.
Será que consegui chegar à raiz da contradição? Talvez sim… ou talvez não…”
Adriana Campos